segunda-feira, 3 de abril de 2017

Menos Dalai Lama e mais offshores

É famosa a resposta de George Mallory quando lhe perguntaram por que razão queria escalar o Evereste: “Porque está lá.” Também poderíamos responder exactamente o mesmo se nos questionassem sobre o motivo de ainda nos indignarmos com as offshores: “Porque estão lá.” E talvez acrescentássemos com um encolher de ombros: “É assim. Não há nada a fazer.” São evidências como estas que nos confrontam com a nossa pequenez e impotência em alterar a ordem natural das coisas. Por muito que nos custe admitir, o Homem é apenas um joguete das forças da Natureza que tanto são capazes de criar num dia montanhas gigantescas e, no outro, paraísos fiscais.
 
Apesar de ombrearem em termos de beleza e de monumentalidade, parece-me que atingir o cume de uma montanha com quase nove mil metros de altura é relativamente mais simples do que abrir conta numa offshore. Perder o nariz enquanto se sobe o Evereste é uma brincadeira de crianças quando comparado com as terríveis dificuldades em ter um saco azul nas Ilhas Bermudas ou uma empresa de fachada no Liechtenstein. Na verdade, todo aquele que deseja iniciar a sua demanda do paraíso fiscal necessita de uma grande preparação material e, simultaneamente, de um absoluto despojamento de todo e qualquer bem espiritual, ético e moral. O paraíso fiscal é, portanto, o negativo do paraíso cristão. “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”, disse Jesus aos seus discípulos. Ao invés, nas offshores é mais fácil passarem incólumes dez mil milhões de euros pela Autoridade Tributária e Aduaneira do que um pobre abrir um apartado fiscal na Mossack Fonseca.

A formação natural das offshores provoca a mesma reacção em nós que o pôr-do-sol: por mais vezes que o vejamos, ficamos sempre espantados. A grande diferença é que normalmente não nos indignamos quando o astro rei se afunda no horizonte; já com os paraísos fiscais há sempre um certo agastamento que, por norma, desaparece após alguns minutos. O processo é normalmente este: “Há uma offshore nas Ilhas Virgens? A sério? Não fazia a mínima ideia. O quê? O Ronaldo e o Messi põem lá dinheiro para fugir aos impostos? É uma vergonha! É tudo uma cambada de gatunos! É verdade, a que horas passa o Real Madrid-Barcelona?”

Por muita revolta que nos cause, há um aspecto positivo que nunca foi aflorado pelos especialistas na matéria: nos locais onde a Natureza cria paraísos fiscais, raramente há guerra. É por de mais conhecida a neutralidade da Suíça, as ilhas do Canal também não são propriamente uma ameaça à paz mundial e mesmo os Estados Unidos não têm um conflito em larga escala no seu território desde o século XIX. Ao contrário dos direitos humanos dos humanos, os direitos humanos do dinheiro têm sido exemplarmente observados em todo o mundo. Não me recordo da última vez que o Dinar foi vítima de perseguições políticas ou de a Libra ter sido descriminada pelas suas crenças religiosas. Infelizmente, a Amnistia Internacional tem sistematicamente ignorado estes factos nos relatórios que publica.

Parece-me, portanto, que a única solução para o conflito israelo-árabe passa pelo aparecimento de paraísos fiscais entre Ramallah e Telavive. Talvez assim o governo israelita pense nos apartados fiscais e nas contas bancárias que poderão ficar desalojadas antes de mandar invadir mais um pedaço de território palestiniano; por outro lado, o Hezbollah poderá reconsiderar a sua decisão de lançar roquetes no mercado de Jerusalém ao lembrar-se dos inocentes fundos financeiros que repousam em offshores hebraicas e que nada têm que ver com o conflito. No dia em que tal acontecer, ninguém tirará o Prémio Nobel da Paz aos paraísos fiscais. Esperemos que a Natureza seja misericordiosa connosco.

terça-feira, 21 de março de 2017

A clandestinidade é quem mais ordena

Na Ria Formosa começaram recentemente as demolições de várias casas construídas ilegalmente em zonas de risco. Como seria de esperar, os moradores têm protestado contra a decisão, o que tem sido frutífero: do número inicial de 369 construções a abater passou-se para 57. Esta redução é uma decisão acertada por parte do Ministério do Ambiente, porque mais do que nunca é preciso manter a qualidade elevada das obras clandestinas em Portugal. Provavelmente muitas das casas que vão ser demolidas pagavam uma mensalidade para ter televisão por cabo ou, pior ainda, tinham contrato em dia com a EDP, o que obviamente dá má fama aos verdadeiros clandestinos. Se é para andar a pactuar com situações regularizadas e em conformidade com a lei, então mais vale ficarem sem casa e abandonarem a clandestinidade de vez.

A luta dos moradores, contudo, não tem esmorecido e nos últimos tempos apresentaram um argumento de peso. Segundo eles, as construções clandestinas contribuem para a protecção do habitat do camaleão. A estocada argumentativa final veio do presidente da Câmara de Olhão, António Pina, que curiosamente também tem uma casa clandestina na Ria Formosa. De acordo com o autarca, o animal localiza-se “predominantemente nas árvores e arbustos existentes junto às habitações”, logo devem ser preservadas para que a fauna e flora subsistam. Perante esta explicação cristalina e cientificamente irrefutável, só por ignorância e má vontade é que as demolições irão avante.

Como todos sabem, foi a inexistência de obras clandestinas no período jurássico que levou à extinção dos dinossauros. Se houvesse alguns bairros ilegais, tinham-se abrigado no seu interior e nos arbustos situados nas imediações aquando da queda do meteorito e, ainda hoje, andavam por aí. A própria Quercus devia olhar para o caso de sucesso do camaleão na Ria Formosa e replicá-lo noutros locais. Na serra da Malcata, por exemplo, é evidente que o lince está praticamente extinto porque sente a falta de habitações clandestinas feitas em zinco ou alumínio que lhe animem os dias. Com tantas árvores e tanto verde, o animal sente-se aborrecido e prefere não dar continuidade à espécie.

Outro argumento insofismável apresentado pelo buliçoso presidente da Câmara de Olhão é que as construções ilegais são “uma conquista de Abril”. É inegável que tão ou mais importante que a liberdade, o desejo de viver em clandestinidade foi decisivo na Revolução de 1974. Naquela manhã de Abril, quantos e quantos portugueses se abraçaram em êxtase, enquanto gritavam: “Finalmente vou poder construir uma casa clandestina na Ria Formosa! Obrigado Salgueiro Maia!”

Estranhamente os historiadores, cancioneiros, poetas e artistas em geral têm ignorado o papel essencial que a aspiração do povo à clandestinidade teve no 25 de Abril. Lembro-me sempre disso quando leio o poema “As portas que Abril abriu” de Ary dos Santos. Logo para começar, sinto que o título está algo incompleto. Parece-me que o vate deveria ter optado por algo como “As portas clandestinas com acabamentos em alumínio que Abril abriu”. Depois podia e devia ter incluído no corpo do poema alguns versos que exprimissem o desejo colectivo de ter uma casa ilegal numa zona de risco, como por exemplo:

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um clandestino que sorriu
uma casa ilegal que se construísse
um mamarracho em zona protegida que ruiu
um autarca espertalhão que seguiu
o que o interesse pessoal lhe predisse
e entre alumínios zinco
armações em ferro chapas
puxadas eléctricas antenas
uma nação que enterrava
a sua vasta e única beleza
na construção que a fez escrava
da sua própria pobreza!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

I like, logo existe

Na manhã gelada do dia 15 de Fevereiro de 2014, Lucie deixou a filha à entrada da escola preparatória Franklin Roosevelt, situada nos arredores de Bowling Green, cidade americana do estado de Kentucky. O nevão que caíra de madrugada tornara as estradas praticamente intransitáveis, obrigando-a a conduzir mais devagar do que o habitual. Por esse motivo, Elisabeth estava cerca de 10 minutos atrasada para a aula de Geografia, algo que detestava que acontecesse. A partir dessa manhã, no entanto, a sua costumeira e obstinada inflexibilidade em relação a faltas de pontualidade iria mudar drasticamente.

A poucos metros da sala de aula, o silêncio do longo corredor foi cortado pelo barulho de duas rajadas de metralhadora misturadas com gritos de pânico e o tilintar de vidros partidos. Elisabeth ficou alguns segundos paralisada, em choque. “Não percebi logo de que lado viera o som e não sabia o que fazer”, conta. Uma nova saraivada de tiros mais intensa fê-la reagir e começar a correr na direcção da saída. Antes de dobrar o corredor, olhou para trás e viu dois indivíduos vestidos de negro a entrarem na sala onde decorria a aula de matemática. “Se tivesse ficado parada mais uns segundos tinha sido morta”, recorda Elisabeth com a voz trémula e lágrimas grossas a rolarem pela sua face adolescente, onde as olheiras fundas denunciam noites em claro. O barulho que se seguiu das AK47 enquanto se precipitava para a saída, ainda hoje a atormenta. “Qualquer som mais intenso como o estouro de um foguete deixa-me num estado de ansiedade incontrolável.” Desde essa fatídica manhã de Fevereiro que Elisabeth, agora com 16 anos, tem acompanhamento psicológico três vezes por semana.

Durante cerca de meia hora os dois autores do massacre puderam dar largas à sua orgia sanguinária. Entraram em cada sala de aula e mataram a sangue frio alunos e professores. A polícia, que entretanto cercara a escola, abateu um dos indivíduos no laboratório de química, enquanto o outro se refugiou na cantina, onde cometeu suicídio com um tiro na cabeça, depois de gritar algumas palavras imperceptíveis em árabe.

No total, foram mortos 53 alunos, 12 professores e 11 funcionários da escola Franklin Roosevelt. Foi o mais mortífero ataque com armas de fogo no estado de Kentucky e um dos piores em todo o país. Os dois autores do massacre eram iraquianos e tinham entrado nos Estados Unidos da América um mês antes. Abdul Abdeslam, 34 anos, e Ali Harib, 32 anos, estavam a viver em casa de Ahmed Hassan, primo do primeiro. Apesar de sempre ter negado qualquer envolvimento na preparação do ataque, ficou provado que Ahmed terá ajudado na compra das duas AK47 utilizadas no massacre, estando por esse motivo a cumprir uma pena de 60 anos de prisão.

Segundo as informações disponibilizadas pelo FBI, Abdul e Ali ter-se-ão conhecido na cidade iraquiana de Fallujah, onde se converteram ao islão radical e muito provavelmente aderido ao Daesh. Em Dezembro de 2013 compraram bilhetes de avião para os Estados Unidos da América com o intuito de procurarem trabalho no país. No mês seguinte aterraram no aeroporto de Bowling Green e ficaram hospedados em casa de Ahmed Hassan que vivia na cidade desde 2010 e era funcionário da cadeia de fast food KFC há dois anos. Ambos tinham passaporte e toda a documentação necessária para viajarem. Por esse motivo, nunca levantaram suspeitas aos serviços de segurança, o que reacendeu o debate sobre a necessidade de introduzir medidas mais restritivas em relação à entrada no país de cidadãos vindos do Médio Oriente.

Apesar da dimensão desta tragédia, a comunicação social nunca a noticiou. Nem uma linha foi escrita sobre o massacre, nem uma simples referência, nem uma nota de rodapé no jornal da noite. Nada. A razão para este silêncio cúmplice foi que (e agora peço que o leitor contenha a sua indignação) o massacre de Bowling Green nunca aconteceu. Trata-se de um argumento pífio e que tresanda a ranço. Sim, nada do que foi relatado nos últimos parágrafos aconteceu no mundo real, mas desde quando é que isso é um critério para não se escrever uma notícia?

Quando a conselheira presidencial Kellyanne Conway revelou este massacre numa entrevista a uma televisão norte-americana, o papel dos jornalistas não era investigar a sua veracidade no mundo real. O que deveriam ter feito era esquadrinhar as redes sociais e ver se havia pessoas suficientes a acreditar nele e a partilhá-lo pelos amigos virtuais. O acontecimento incendiou as redes sociais? Quantos likes teve? Já é viral? Quantas pessoas estão dispostas a defendê-lo e a insultar todos os outros que não acreditam nele? Estas são as perguntas que devem presidir qualquer investigação jornalística que se preze no século XXI.

Caso o massacre de Bowling Green não tivesse posto as redes sociais a arder, então sim, os jornalistas tinham toda a legitimidade para ter escrito algo como: “O massacre de Bowling Green não passa de um triste embuste da conselheira presidencial com propósitos populistas. Basta um rápido passar de olhos pelas redes sociais para constatar que este massacre teve apenas 57 likes e 23 partilhas, números claramente insuficientes para o tornar um facto. Kellyanne Conway é a prova de que não inventa factos quem quer, mas sim quem tem as competências necessárias para tal. Perante tamanha demonstração de amadorismo, não resta outra alternativa a Donald Trump que não seja demiti-la.”

No mundo da pós-verdade, o que aconteceu mesmo passou a ter um papel secundário em relação às minhas crenças. Se eu acredito em algo que é legitimado e defendido por um vasto número de utilizadores nas redes sociais, logo existe. Infelizmente muitos jornalistas continuam a sobrevalorizar acontecimentos que aconteceram mesmo em detrimento dos acontecimentos em que eu acredito ou que gostava que tivessem acontecido. É por essa razão que nunca vieram falar comigo, apesar de ser o único português que ganhou dez Ligas dos Campeões consecutivas e que descobriu em simultâneo a cura para a sida e o pé de atleta numa saída à noite com os amigos. Os 350 mil likes e as 500 mil partilhas que estes factos têm nas redes sociais atestam a sua veracidade. Depois admiram-se que as pessoas não comprem jornais.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Ainda agora começou e já suspiro por 2018

Caro Presidente da República,

O senhor estragou-me o ano. Bem sei que estamos no início, mas daqui em diante pouco mais me resta do que engonhar até chegar 2018. A razão do meu fastio será decerto a mesma de tantos outros portugueses, pelo que seria despiciendo estar a enunciá-la. Mas para memória futura e para que não se volte a repetir semelhante situação, irei fazê-lo.

No dia 1 de Janeiro, a seguir ao jantar, recostei-me comodamente no sofá, enquanto contava os minutos para o início do seu discurso de ano novo. “Que novas calamidades, tragédias e depressões irá ele anunciar?”, perguntava-me, com uma impaciência difícil de conter. “Será a vinda do diabo ou regresso do FMI? E qual é a diferença entre ambos? Será ao nível das malfeitorias que se distinguem?”, filosofava, actividade a que me presto amiúde durante a digestão.

Bastou, no entanto, ouvi-lo durante um minuto para me sentir defraudado. Por momentos, ainda pensei que na noite anterior tivesse apanhado por engano um táxi para a Escandinávia e que, sem dar por isso, estivesse em Estocolmo a ouvir o Presidente da Suécia a discorrer sobre esperança e um futuro promissor. Infelizmente, a minha ilusão esfarelou-se assim que cometi o erro de afastar o cortinado e ver as marquises em alumínio no prédio do outro lado da rua. Estava mesmo em Portugal.

Quem é que o senhor pensa que é para fazer um discurso deprimentemente optimista? Com que atrevimento é que ousou falar de balanço positivo em 2016? Onde é que foi buscar tanto descaramento para dizer que acabámos o ano a acreditar no melhor? Nem no Black Friday fui enganado desta maneira, senhor presidente! É nestes momentos que mais sinto falta de um Paquete de Oliveira para as mensagens de ano novo. De certeza que o obrigaria nos sete minutos e quarenta segundos que durou o seu discurso a fazer pelo menos uma referência à potencial situação explosiva que ameaça o país. Ou ao desemprego galopante que leva milhares de jovens a emigrar. Ou então ao risco de instabilidade política, financeira e social que põe em causa a nossa continuidade na zona euro e no próprio cosmos.

Isso sim, estaria em linha com as boas e tradicionais mensagens do 1 de Janeiro, as quais me faziam ressacar pessimismo e autocomiseração pela bílis durante o resto do ano e andar de café em café a zurzir no país que não avança e nos políticos que nada fazem. O que é que faço agora com todo este optimismo e esperança? Quem é que vou culpar se mais uma vez não cumprir as resoluções de novo ano? E o que irá acontecer ao Medina Carreira e ao Vasco Pulido Valente?

Além disso, a maneira como comunica é demasiado espaventosa. Tantos gestos e modulações de voz deixaram-me tonto e com saudades do estilo esfíngico e hirto do anterior inquilino de Belém. Tenho a sensação que passei subitamente de um filme do Manoel de Oliveira para o Fast and Furious XIV. 

Face ao exposto, senhor presidente, exijo um pedido de desculpas da sua parte e que volte a fazer um discurso de ano novo mais consentâneo com a gravidade do momento. Deixe-nos deprimir com a mesma alegria dos anos anteriores, senhor presidente! O país do fado e da tristeza, no qual me incluo, agradecem.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Se isto é um desempregado

A actual guerra dos números relativos ao desemprego teve o mérito de trazer de novo para a ribalta uma questão que tem ocupado e angustiado a humanidade desde os seus primórdios. É algo que nos desaloja das nossas certezas e que nos obriga a repensar o nosso lugar no mundo. Como já devem ter calculado, essa questão é a seguinte: o que é um desempregado?

Apesar do desafio gigantesco de encontrar uma resposta completa e definitiva, o PS não se atemorizou e, através de um simples cartaz, conseguiu demonstrar de forma categórica que, pasme-se, um desempregado não é um empregado. Trata-se de um progresso enorme para a ontologia do desempregado e que nos permite desde já elaborar com segurança o seguinte raciocínio lógico: Todos os empregados não são desempregados. Maria João não é desempregada. Logo, Maria João é empregada. É uma certeza que reconforta, mas ainda insuficiente, porque esclarece somente aquilo que o desempregado não é.

Felizmente, o Instituto Nacional de Estatística foi mais longe e, segundo a Visão, define um desempregado como “uma pessoa entre os 15 e os 74 anos que reúne todas estas condições: não tem trabalho remunerado, procurou emprego ao longo de um determinado período e está disponível para trabalhar”. Já o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), de acordo com a mesma fonte, é mais restrito, definindo o desempregado apenas como “o número de pessoas que estão inscritas nos centros de emprego”.

É partir daqui que começam a surgir vários pomos de discórdia e outras tantas dúvidas nesta apaixonante refrega filosófica: será que alguém que seja passivo, mas que esteja inscrito no centro de emprego poderá ser considerado um desempregado? Ou será que o acto de inscrição implica tacitamente uma acção, tornando necessariamente o desempregado em activo, o que valida as duas definições apresentadas? E o que dizer de um adolescente de 15 anos que tenha procurado trabalho entre os 13 e os 14? Será que reúne as valências necessárias para ser um desempregado de pleno direito? E uma pessoa que esteja inscrita no centro de emprego enquanto trabalha em part-time sem contrato? Está ou não englobada na definição de desempregado defendida pelo IEFP? São questões que merecem ser estudadas com tempo e de forma aprofundada, tal a complexidade que encerram. Não admira, portanto, que haja tantas discrepâncias no número de desempregados, uma vez que ainda estamos tão longe de perceber o que são realmente.

O governo, no entanto, tem sido um acérrimo opositor deste debate, como se viu no convite que endereçou aos desempregados para emigrarem. Nos últimos quatro anos, 200 mil, na sua maioria jovens, seguiram o seu conselho, privando-nos de matéria-prima essencial para uma análise ontológica mais aprofundada da essência do desempregado.

Como se não bastasse, Passos Coelho e Paulo Portas estão empenhados em desenvolver um conceito antagónico ao do desempregado, cujo nome é desencorajado. Segundo esta nova corrente de pensamento, um desencorajado não pode ser considerado um desempregado, uma vez que é alguém que não está inscrito no centro de emprego e que desistiu de procurar trabalho, sendo, portanto, passivo.

Mais do que a questão filosófica em torno da ontologia do desempregado, a preocupação de ambos é conseguir aumentar o número de desencorajados em prejuízo dos desempregados para efeitos meramente eleitoralistas. Para isso contam com a inestimável colaboração de muitas empresas, cujos anúncios de emprego quase nos fazem ter saudades dos tempos da escravatura. Os responsáveis pelos recursos humanos também têm sido incansáveis no árduo trabalho de não responder às candidaturas dos desempregados que, assim, vão engrossando o número de desencorajados.

Com as eleições a mês e meio de distância, é quase certo que o governo quer compor ainda mais o número oficial de desempregados. Uma das medidas para o conseguir será a substituição dos ineficazes centros de emprego por centros de desencorajamento, onde o desempregado receberá conselhos úteis para deixar de procurar trabalho.

 O dia-a-dia nestes novos centros poderá ser como se segue:

- Bom dia, João. Por favor sente-se. Vejo aqui no seu currículo que tirou uma licenciatura em engenharia ambiental. O que é que espera fazer com isto?

- Bem… gostava de conseguir trabalhar num centro de investigação ambiental ou num laboratório.

- Muito bem… Estou a ver que aos 23 anos ainda acredita em histórias da carochinha. Com esta idade e com esta licenciatura, o senhor está condenado ao desemprego para o resto da vida! Porque é que não fica antes em casa sossegado e deixa de nos estragar a taxa de desemprego?

- Mas eu ainda sou novo e não me importo de fazer o que quer que seja, mesmo com um ordenado baixo.

- Não me diga que quer aceitar propostas miseráveis em que ganha três euros à hora. Deixe de ser lírico! Diga-me lá: é mesmo isso que quer? Quase aposto que a empregada dos seus pais ganha o dobro disso e nem a quarta classe tem! Foi para isto que andou a estudar anos e anos para agora ganhar menos que uma iletrada? É óbvio que não! Deixe de procurar emprego e fique em casa sossegadinho que lá é que está bem. Vamos, desencoraje-se! Admita que a sua vida está perdida! Vá lá para casa pensar no que lhe disse e, acima de tudo, não se esqueça de manter esse desencorajamento em alta, porque o governo e o país agradecem. Fico aqui a torcer por si.


domingo, 8 de março de 2015

Génesis da esquerda

No princípio, quando Deus criou os partidos, a política era informe e vazia, as trevas cobriam a democracia e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície ideológica.

Deus disse: “Faça-se a esquerda”. E a esquerda foi feita. Deus viu que a esquerda era boa e separou a esquerda da direita. Assim surgiu a primeira divisão entre correntes políticas.

Deus disse: “Haja um partido para a esquerda e que esse partido seja o Comunista.” E assim aconteceu.

O Partido Comunista desenvolveu-se, mas um número cada vez maior de pessoas começou a contestá-lo. Surgiram então as primeiras dissidências. Deus não gostou e disse: “Reúnam-se os dissidentes que estão debaixo dos céus num único lugar.” E assim surgiu o Bloco de Esquerda. E Deus viu que era bom coexistirem dois partidos de esquerda.

Em breve, alguns bloquistas ficaram descontentes, tomando como suas as dores da franja de eleitores que não se sentiam representados. Reivindicaram então a criação de um novo partido. Deus concedeu e disse: “Rui Tavares, ergue-te, sai do Bloco e cria o Livre.” E Deus viu que isto era bom.

Pouco tempo passou, no entanto, para que outros bloquistas elevassem as suas vozes suplicantes a Deus. Pediam-Lhe que olhasse pelos marginalizados da esquerda sem eira nem partido onde pudessem dar largas às suas utopias. Deus ouviu-os e disse: “Joana Amaral crio-te a partir da costela do Louçã para que formes sobre a terra o Juntos Podemos”. E Deus viu que isto era, enfim, aceitável.

Ainda mal o Sol despontara, já novos queixumes eram dirigidos contra Deus por se ter esquecido dos resquícios do eleitorado jovem e urbano que se pastoreia entre o Bairro Alto e o Cais Sodré. Deus suspirou e disse: “Então mas o vosso eleitorado é assim tão vasto e variegado que precise de mais um partido? Daniel Oliveira ergue-te e cria lá um Manifesto 3D que seja pela dignidade, democracia e desenvolvimento.” E Deus viu que isto era parvo.

Estava Deus ainda ferrado no sono quando a voz de Joana Amaral lhe ceifou os sonhos. Lamentava-se que o Juntos Podemos estava mal criado e que pretendia algo novo que representasse o eleitorado que é de esquerda entre o lusco-fusco e o nascer da estrela da noite. Deus maldisse o seu trabalho mas como era magnânimo cedeu: “Toma o Agir e agora não me chateies que hoje tenho de povoar as águas com monstros marinhos e encher os ares de passarada.”

No dia seguinte, Ana Drago apareceu gemebunda aos pés de Deus, que lhe perguntou: “O que tens Ana?” Ao que ela Lhe respondeu: “Quero sair do Bloco e criar uma plataforma política de alternativa concreta e com capacidade de influenciar a governação ancorada à esquerda.” “Ana, sabes bem que a abstracção nunca foi o meu forte. Eu prefiro criar serras, mares e animais. Não preferes que eu te dê uma praia com coqueiros ou vale verdejante com um riacho lá no fundo cheio de trutas?”, sugeriu-lhe Deus. Num acesso de histerismo, Ana esperneou enquanto gritava que também queria uma plataforma só para ela. Deus suspirou, encolheu os ombros e deu-lhe uma Plataforma que baptizou de Tempo de Avançar. E foi assim que Deus se iniciou na criação de bugigangas. “A continuar assim ainda acabo como almocreve a vender tralha de aldeia em aldeia”, desabafou.

Pensava então Deus que ia ter descanso, quando novas e estridentes vozes reboaram pelas serras e outeiros que criara, assustando os animais alados que se afastavam esparvoados com tais clamores. Eram proto dissidentes do Bloco que queriam ter o seu manifesto, plataforma, alternativa, iniciativa, fogacho, impulso ou vontade que representasse os eleitores de esquerda, fossem eles do lote 13 do Bairro da Conceição no Porto ou eleitores de esquerda entre as sete e as oito da manhã ou então eleitores que se tornam de esquerda quando atingem um determinado patamar de riqueza em que é de bom-tom mostrar que se tem preocupações sociais. 

Então, o Senhor Deus olhou para eles e disse: “Porque continuam a pedir-me mais partidos e não estão satisfeitos com a minha Obra, maldita sejam as eleições por vossa causa. Delas só arrancarão votos, e à custa de penosos trabalhos, a dois por cento dos eleitores. Ganharão cada voto a expensas de muito sacrifício, enquanto muitos outros fugirão para a direita. Comerão o pão amargo que têm amassado até que voltem a unir-se. Lembrem-se que vós sois insignificantes e à insignificância sereis votados.”

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O verdadeiro discurso de vitória nas Europeias

Caras amigas e caros amigos,

Esta noite conseguimos uma grande vitória! (aplausos) Obtivemos um resultado que superou as nossas expectativas mais optimistas e que, por esse motivo, nos dá ainda mais confiança no nosso trabalho e no futuro do nosso país. Pela primeira vez desde que somos uma democracia, ou seja, pela primeira vez em 40 anos, conquistámos a preferência de dois terços das portuguesas e dos portugueses! (aplausos) Repito: dois terços de apoio das portuguesas e dos portugueses! (aplausos) Este resultado demonstra de forma inequívoca que nós somos a verdadeira voz do povo e que vamos de encontro às suas preocupações mais profundas e à sua esperança de que tudo se mantenha na mesma. Por isso, minhas queridas amigas e meus queridos amigos, a hora é de celebrar em conjunto este triunfo retumbante, não esquecendo, porém, de agradecer a todas as portuguesas e a todos os portugueses o apoio que nos deram. A todas as portuguesas e todos os portugueses, o nosso muito obrigado. Vitória! Vitória! Vitória!



Minhas queridas amigas e meus queridos amigos, perante um resultado desta magnitude, apenas me ocorre fazer a seguinte pergunta: onde estão aquelas vozes que diziam que as portuguesas e os portugueses estavam descontentes e que queriam mudar de rumo? Onde estão aqueles que diziam que o povo estava cada vez mais indignado e que pretendia alterar o estado das coisas? Onde estão aqueles que diziam que por estar mau tempo e não haver futebol, mais portuguesas e mais portugueses iam acorrer às urnas? Pois é, ninguém os ouve agora, esmagados que estão pelo peso da nossa vitória histórica! (aplausos) Vitória! Vitória! Vitória!

Na verdade, minhas caras amigas e meus caros amigos, as manifestações e protestos que fomos assistindo ao longo destes últimos três anos não demoveram, nem por breves instantes, a nossa convicção na apatia e indiferença do povo português. Houve alguns mais descrentes que nos disseram que talvez devêssemos colar uns cartazes, escrever meia página de programa eleitoral ou mesmo, imagine-se, fundar um partido. (apupos) No entanto, nunca cedemos a esse tipo de pressões e a essa demagogia fácil, porque acreditámos sempre, mas sempre, na apatia das portuguesas e dos portugueses e que no momento certo iam demonstrar que estavam do nosso lado! (aplausos)

Bem sei que agora é fácil falar, mas eu sempre tive a convicção de que dentro de cada portuguesa e de cada português continua a viver um crítico inconsequente de mesa de café. Apesar do aumento gigantesco de impostos, apesar do desemprego galopante, apesar da emigração crescente de jovens licenciados, apesar do aumento da exclusão social, mantivemo-nos unidos na certeza de que as portuguesas e os portugueses não iriam sentir-se impelidos a votar. Por isso, posso dizer esta noite com orgulho que não há corte salarial, por mais profundo e injusto que seja, que tire as portuguesas e os portugueses do seu coma cívico! (aplausos) O executivo bem pode continuar com a sua política de despedimentos e de empobrecimento generalizado que não conseguirão que as portuguesas e os portugueses se levantem e vão massivamente às urnas eleger outros governantes! (aplausos) Pedro Passos Coelho e seus sequazes bem podem continuar a ir além desta e de todas as Troikas à face da Terra que o nosso povo continuará a preferir macaquear indignação no facebook, e redes sociais afins, do que a locomover-se até a um local de voto. A União Europeia pode continuar a tutelar-nos alegremente com os ditames que quiser e a caminhar alegremente para a desagregação que nós, por cá, continuaremos a urrar indignação contra o desejo de uma socialite de comprar uma mala de pele de crocodilo e a babar ódio nos fóruns TSF. 

Minhas queridas amigas e meus amigos, por muito que nos mintam, por muito que nos tirem, por muito que nos roubem, por muito que nos espezinhem, seremos sempre, mas sempre, indignados de esplanada, revolucionários de facebook e activistas de beira-mar! (aplausos) Vitória! Vitória! Vitória!

Viva a Abstenção! Viva Portugal! (aplausos) Vitória! Vitória! Vitória!

domingo, 13 de abril de 2014

A reacção revoltada à recalibragem reformista do Governo

Como todos se recordam, a proposta de reindustrialização do país, avançada pelo ex-ministro Álvaro Santos Pereira, causou celeuma e nunca saiu da gaveta. Seguiu-se a requalificação dos funcionários públicos, que se enredou em polémicas sem fim. Mais recentemente, a recalibragem dos objectivos da Troika ficou encalhada em outros tantos pomos de discórdia. Em suma, parece-me evidente que as palavras com prefixo re- são, por esta altura, a principal frente de oposição ao Governo. Já toda a gente o percebeu, menos o PS, que era o que teria a ganhar mais com esta situação. Se assim não fosse, muito provavelmente o líder socialista já teria ido a uma conservatória do Registo Civil e trocado o nome para António José Resseguro. Seria, sem dúvida, a primeira medida bem sucedida de oposição a Passos Coelho.

Ao invés, o povo português, com a esperteza maldosa que o caracteriza, há muito que detectou este calcanhar de Aquiles. Assim, à reindustrialização, requalificação e recalibragem tem reagido, respectivamente, com repulsa, revolta e regurgitação. E, como se não bastasse, tem reivindicado a reposição dos subsídios retirados, a reestruturação da dívida e a reeleição de um novo Governo que reequilibre as contas públicas e reinvista na economia.

Por altivez ou desprezo pelas eleições, o primeiro-ministro continua alheado dos efeitos nefastos que as palavras com prefixo re- têm na popularidade do executivo. Caso contrário, durante o congresso do PSD teria evitado utilizar a palavra revisão para falar da necessidade de alterar a Constituição. O mais certo é que dentro de poucos dias haja reacções de repúdio e até quem relembre os chumbos do Tribunal para justificar o eventual ressabiamento de Passos Coelho em relação à lei fundamental. Receio que haja mesmo alguns remoques bem remordazes por parte de gente mais reguinga.

Também Paulo Portas, normalmente tão hábil no jogo político, tem sido reincidente no uso da palavra restauração, o que tem suscitado reservas quanto à sua sanidade mental. O emprego da palavra refundação para abordar a necessidade de reduzir os custos do estado social foi outro tiro no pé dado pelo vice-primeiro-ministro. Como seria de esperar, a maioria das pessoas não se ficou pelo mero protesto e pelo pedido de demissão. Preferiram, de forma refinada, reivindicar a sua renúncia e o fim do seu regabofe retórico.

Enquanto a esperada reeleição de um novo governo não chega, talvez se possa aproveitar o acervo de palavras que entrou no léxico político para renovar a língua portuguesa, sobretudo no que aos trava-línguas diz respeito. Na verdade, há muito que qualquer aluno da primária consegue dizer sem dificuldades de maior o estafado “o rato roeu a rolha do rei da Rússia”. É preciso inovar, fazer algo de diferente, mais de acordo com os tempos actuais, como “a requalificação recalibrada da reindustrialização resvalou na repulsa reivindicativa dos reformados revoltosos.” Ou então “a República reivindica a reposição retroactiva das reformas no relançamento real da retoma”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Da polivalência comercial

Portugal padece há vários anos de um grave problema. Trata-se de uma maleita bastante perigosa que dá pelo nome de polivalência comercial. Todos nós já tivemos contacto com ela e, de uma maneira ou de outra, já sofremos na pele os seus efeitos. Por essa razão, é inacreditável como tem escapado até hoje à análise dos analistas e às críticas dos críticos.

Apesar de ser desnecessária, aqui fica, para os mais distraídos, a definição de polivalência comercial aprovada pela academia: é um fenómeno que consiste na junção de valências comerciais díspares num espaço relativamente exíguo. Para que percebam melhor, ao pé de minha casa existe um estabelecimento chamado Grelha Alentejana que se intitula, através de vistosos letreiros, da seguinte maneira: “Café (Vinhos e Petiscos) – Pastelaria – Mini-Mercado – Garrafeira – Charcutaria – Produtos Alentejanos – Whiskis – Bebidas Esperituosas” (assim mesmo, com e). Perante tamanha versatilidade, poder-se-á pensar que se trata de uma grande superfície comercial, com patinadores e corredores a perder de vista. Na verdade, é pouco maior do que a sala de estar da maioria das pessoas, com a diferença de ter garrafas de vinho por toda a parte em alegre convívio com enchidos, queijos e bolos. No entanto, o principal problema é o seguinte: o que é que se pede num café-pastelaria-mini-mercado-garrafeira-charcutaria? Da última vez que lá entrei, acabei por pedir um galão traçado, um pão de Deus com migas e manteiga e encomendei 200 gramas de pastéis de nata cortados em fatias muito finas. Como é óbvio, estive três semanas seguidas com uma gastroenterite.

Infelizmente, o fenómeno tem alastrado a outras áreas comerciais. Às vezes, entro numa loja e fico com a sensação de que a Bertrand, a Toys’R’Us e a Papelaria Fernandes decidiram fundir-se num espaço do tamanho de uma casa de banho pública. É nestas alturas que a ASAE deveria entrar em acção, pondo na porta de cada um desses estabelecimentos um letreiro que avisasse os clientes para o perigo de derrocada, tal é a quantidade de livros, dossiers e bonecada que anexam cada centímetro quadrado disponível. Ainda no outro dia cometi a imprudência de ir a um desses locais e tropecei na perna de um urso cor-de-rosa gigante que estava à entrada, mas, por sorte, a minha queda foi amortecida por três caixas de puzzles de mil peças. Acontece que, com a atrapalhação, apoiei-me a uma estante para me levantar, o que fez com que a lombada do Guerra e Paz me caísse em cheio em cima do pescoço. Desde então, ando com um colar cervical e tenho várias peças de puzzle incrustadas no meu corpo. E tudo por causa da minha estúpida ideia de querer comprar um jornal numa banca-de-jornais-papelaria-livraria-loja-de-brinquedos-reprografia.

Não sei se esta denúncia dos perigos associados à polivalência comercial vai chegar a bom porto. Creio que não. Trata-se de um lobby demasiado forte, com tentáculos de norte a sul do país. Por isso, se é este, de facto, o caminho que se quer seguir, então pretendo que o fenómeno se alastre a outras áreas. Gostava, por exemplo, que um talho acumulasse as funções de um banco. Assim, além de levar para casa três bifes de vaca e 350 gramas de entremeada, pedia para investir meio quilo de carne picada em acções ou então que me fizessem uma aplicação financeira a longo prazo de quatro quilos de picanha. E porque não fundir uma peixaria com uma perfumaria, passando-se a chamar peixumaria? O cliente poderia experimentar, por exemplo, a nova fragrância de peixe-agulha enquanto encomendava dois quilos de robalo com odor a Hugo Boss. Enfim, novas oportunidades de negócio não faltam.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Campanha autárquica em fascículos

Observando a lei à risca, a Comissão Nacional de Eleições obrigou os órgãos de comunicação social a dar um tratamento igualitário a todas as forças políticas envolvidas nas autárquicas de 29 de Setembro. Perante uma decisão tão sensata e democrática, qual foi a reacção os jornalistas? Abraçaram-se em júbilo e arrancaram país fora de bloco e microfone em riste, felizes por darem o mesmo espaço mediático a todas as campanhas? Nada disso. Ficaram descontentes, alegando, imagine-se, que a cobertura eleitoral se transformou numa tarefa humanamente impossível.

Trata-se, como já devem ter percebido, de uma desculpa de gente preguiçosa que prefere estar repimpada no fresco climatizado das redacções do que ir para o terreno trabalhar. Acontece que eu tenho comigo os números que deitam por terra as suas lamúrias ociosas. Antes disso, devo esclarecer o seguinte ponto: para que o igualitarismo partidário seja observado em sentido literal, os jornalistas não podem restringir a cobertura eleitoral apenas às capitais de distrito – devem também entrar pelo país rural adentro. Posto isto, vamos então aos dados: em Portugal existem 308 municípios e a singela quantia de 3091 freguesias. Se nos cingirmos apenas aos cinco partidos que têm assento parlamentar, verificamos então que há 1540 e 15455 candidatos às câmaras e juntas, respectivamente. Portanto, se as rádios e televisões derem, vamos lá, dois minutos por dia a cada um, chegamos a um total de 33990 minutos. Ou seja, apenas precisam de pouco mais de 23 dias diários para cumprirem a imposição da Comissão Nacional de Eleições. Se os jornais, por sua vez, dedicarem meia folha às 16955 candidaturas, necessitarão somente de escrever umas risíveis 8477 páginas e meia, podendo a outra metade ser dedicada aos incêndios, por exemplo. Em suma, estamos a falar de um trabalho corriqueiro, perfeitamente ao alcance do mais incipiente plumitivo. Além disso, contribui para o desenvolvimento da indústria de celulose no país, visto que os diários vão passar a ter a espessura de uma versão extra longa do Guerra e Paz.

Para cumprir com eficácia igualitária a sua tarefa, talvez a imprensa deva fazer uma parceria com o Planeta DeAgostini para que o dia a dia das candidaturas seja lançado em fascículos. O primeiro até poderá ser gratuito e vir com a indispensável caixa arquivadora mais um poster dos candidatos à Junta de Freguesia de Vilarelho da Raia. Quanto às televisões, talvez seja indicado convidar o Manoel de Oliveira para ajudar na cobertura, uma vez que é a pessoa mais habituada a lidar com longas-metragens em Portugal. 

O único problema que descortino na decisão da Comissão Nacional de Eleições é a hipótese, remota é certo, de em 2055 a comunicação social ainda estar a fazer a cobertura das autárquicas de 2013. Bem sei que estou a ser pessimista, mas a habitual preguiça dos jornalistas pode levá-los a faltar ao cumprimento dos seus deveres em tempo útil. Se o meu receio vier a confirmar-se, é provável que aconteçam episódios bizarros como o seguinte:

Jornalista: Estamos em directo do cemitério de Bordonhos onde reside o candidato do Partido pelos Animais e pela Natureza à presidência da Junta de Freguesia local. Segundo consegui apurar, mudou-se para aqui em 2045, portanto há cinco anos, por motivos de ordem biológica, de acordo com as palavras de algumas das 200 pessoas que habitam a aldeia. Apesar da nossa insistência, o candidato ainda não nos disse quais as propostas que tem para mudar Bordonhos em 2013. Vamos então fazer uma nova tentativa... Não, continua a não querer responder, o que é uma situação que se lamenta, visto que quem perde são as pessoas que nos seguem a partir de suas casas. De facto, há candidatos que fazem tudo para que não cumpramos a imposição da Comissão Nacional de Eleições. Resta-me passar a emissão para o estúdio.