sábado, 9 de junho de 2018

As princesas prejudicam gravemente a saúde

Durante toda a minha infância ouvi histórias de príncipes que tiveram de matar dragões, lutar contra cavaleiros e enfrentar bruxas para conseguirem, enfim, ter a sua recompensa – a princesa. A trama narrativa era sempre a mesma. Havia um príncipe que punha em perigo a sua vida e uma princesa refastelada numa torre ou a dormir confortavelmente numa cama de dossel. Eles eram destemidos e façanhudos; elas frágeis e dondocas. Sempre achei que a repartição de tarefas nas histórias infantis não era equitativa e que, de quando em quando, o príncipe também deveria ter direito a tirar meia hora de sesta, enquanto a princesa, devidamente empoderada, ia combater uns seres maléficos. Mesmo sem o saber, sentia já a falta de uma Isabel Moreira que pugnasse pela igualdade de género nas histórias da minha meninice.

Parece que finalmente a minha revolta silenciosa evoluiu para uma polémica ruidosa. Se não fosse a minha falta de perspicácia, teria facilmente percebido que, no que concerne a histórias infantis, o rastilho seria não o último filme da Disney, mas sim a última campanha antitabágica da Direcção-Geral da Saúde intitulada “Opte por Amar mais”. Os 16 minutos de filme contam a história de uma mãe com cancro do pulmão por causa do tabaco. Está acamada e tem de usar uma botija de oxigénio. Não consegue, contudo, deixar de fumar, apesar dos apelos recriminatórios do marido. Já a filha do casal, com uma tiara sobre a cabeça, mimetiza-lhe os gestos de fumadora. Até aqui tudo normal. Estamos perante uma cena familiar perfeitamente banal. Quem nunca viveu uma situação semelhante nos seus lares, que se acuse. O verdadeiro choque que assanhou parte da opinião pública acontece quando a mãe pede à filha que seja sempre a sua princesa, acrescentando logo a seguir que uma princesa não fuma. Neste ponto, é impossível o telespectador não se sentir revoltado com aquela cena. As questões angustiantes que lhe surgem em catadupa são, no fundo, o cerne desta campanha antitabágica: com que descaramento uma mãe chama princesa a uma filha? Será que deseja mesmo que ela seja raptada por um dragão e passe anos a fio à espera que o príncipe encantado a venha salvar? Onde está a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens quando é necessária?

A fracturante Isabel Moreira não perdeu tempo a classificar a campanha de inadmissível, misógina e culpabilizante das mulheres. E, como corolário, exigiu, democraticamente, que seja retirada. Já os bloquistas consideraram que ela incorre numa simplificação perigosa, porque considera que deixar de fumar é apenas, espante-se, uma questão de vontade. De facto, tenho de dar a mão à palmatória. Quem decide começar a fumar não tem de se sentir culpado por isso, sobretudo se for mulher, e muito menos deve fazer qualquer esforço no sentido de deixar o vício. Muito provavelmente é essa a razão que explica porque é que as caixas dos maços de tabaco têm campanhas de dissuasão tão suaves, com imagens e mensagens que nunca responsabilizam quem fuma. Seguindo a mesma lógica, quem come fast food todos os dias não deve em qualquer momento sentir-se culpado por estar a pesar 150kg. E nunca deverá pensar em trocar os hambúrgueres por verduras, porque assim estaria a reduzir o esforço para perder peso a uma simples questão de vontade.

Por sua vez, Catarina Correia, vice-presidente da Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens, lançou a pergunta que se impõe: “Por que é que não se optou por mostrar que uma mulher forte, empoderada, não fuma?” É uma excelente ideia. Para sensibilizar as mulheres para os riscos do tabaco, o filme só teria a ganhar se a mãe entrasse em casa com uma saca de cimento sobre o ombro depois de um dia passado nas obras. Já a filha surgiria de fato-macaco a substituir as pastilhas dos travões do carro. “Miúda, vê lá se mudas isso como deve ser, estás a ouvir?”, diria a mãe. “No outro dia o teu pai ia-se espetando com o carro numa curva. E nunca te esqueças: as mecânicas fortes e empoderadas não fumam, percebeste? Isso são hábitos de princesas.”

Tenho pena que todos estes movimentos e associações, sempre à cata da próxima indignação, não tenham surgido há mais tempo. As histórias infantis seriam claramente melhores do que são. Provavelmente, Hans Christian Andersen teria dado outro empoderamento à Pequena Sereia e a Gata Borralheira teria mais poder reivindicativo junto das irmãs. Por sua vez, os príncipes deixariam de arriscar a pele para salvar as princesas, porque estas entretanto se tinham tornado feministas autónomas, fortes e indignadas (passe a redundância). Além disso, mais do que dos dragões, feiticeiros ou bruxas, teriam medo de virem a ser acusados de ninfomaníacos machistas e misóginos caso as tentassem salvar. Se é para isso, mais vale ficarem sossegados nos seus palácios a praticar esgrima.

sábado, 2 de junho de 2018

Senhores passageiros, hoje é mais um dia com perturbações


Imagine que se cruza todos os dias na rua com um septuagenário visivelmente perturbado. Quando se aproxima, ouve-o debitar enfadonha e constantemente conselhos sobre segurança. O que faria? Provavelmente ligaria para a Segurança Social e dava conta da ocorrência. Então, por que razão ainda ninguém fez o mesmo com o Metro de Lisboa?

Na verdade, como prenda pelas 70 velas sopradas este ano, o Metro de Lisboa merecia ser levado para um lar onde passasse o resto dos seus dias a assar castanhas à lareira e a relembrar (se ainda for capaz) as bonitas viagens que fez pela cidade. Obrigá-lo a continuar a transportar pessoas, quando já não tem capacidade para o fazer, é uma violência a que nenhum idoso merece ser sujeito. A prova de fé que milhares de utentes fazem diariamente ao deixarem-se ser transportados por ele, é o equivalente a aceitar ser guiado na selva por alguém com Alzheimer. Senão vejamos: diariamente esquece-se de aparecer à hora marcada, está permanentemente com perturbações, provavelmente por não tomar a medicação a horas, e muitas vezes fica parado nas estações sem razão aparente. Ou talvez seja para recuperar o fôlego antes de iniciar a próxima viagem.

A deterioração do seu estado de saúde é tal que receio estar para breve o dia em que deixe cair o andarilho para o meio dos carris, provocando um descarrilamento, ou então que comece a enganar-se na cor das linhas. O utente está há 15 minutos à espera do Metro e ouve o seguinte aviso: “Senhores passageiros, há perturbações na linha roxa… Roxa ou azul? Esperem… deixem-me pôr os óculos… Afinal é a linha castanha que vai para Sacavém via Baixa-Chiado, passando pelo Saldanha. Obrigado e cuidado com a segurança, meus meninos, porque anda aí gandulagem que… (silêncio) Desculpem, saltou-me a placa. Onde é que eu ia?”

Agora que Lisboa está na moda, talvez se pudesse aproveitar estas constantes perturbações para promover ainda mais a cidade junto dos turistas. Uma das frases para a nova acção de marketing poderia ser: “Aproveite para se espalmar contra lisboetas de gema e sinta-se um verdadeiro habitante da cidade”. Outro chamariz igualmente interessante seria: “Gostava de se sentir como uma verdadeira sardine portuguesa em lata? Então viaje no metro e veja como 50 pessoas cabem num metro quadrado. Se ainda conseguir tirar uma selfie enquanto come um pastel de nata, oferecemos-lhe a próxima viagem.”

É de elementar justiça, no entanto, reconhecer que o estado de saúde do Metro não teria chegado a este ponto se tivesse melhores utentes. Setenta anos depois, é difícil de compreender que ainda haja quem não perceba como é que se utiliza este meio de transporte. Quando as portas do Metro abrem, as pessoas que estão no cais de embarque devem deixar espaço suficiente para os que querem sair. Muitas das vezes, deixam um estreito corredor, semelhante ao corredor da morte que se fazia na escola primária, obrigando os utentes a sair a conta-gotas. É por esse motivo que, de agora em diante, ando sempre munido de uma catana para abrir caminho.

Há igualmente passageiros que ainda não perceberam que o Metro continua para lá da porta de entrada. Assim que entram, ficam parados como monos, bloqueando a passagem a todos os outros. Se descolassem os olhos por breves momentos dos smartphones, perceberiam que existem assentos e um longo corredor por onde se podem espalhar. Mas não. Preferem ficar em magotes junto à porta de saída, a levar encontrões, enquanto fazem, alienadamente, scroll down no mural do facebook.

O que vale é que o Metro vai passar a funcionar em pleno já a partir deste Verão. Palavra do presidente da empresa Vítor Domingues dos Santos. Afinal de contas, não há nada como esperar escassos 70 anos para que o velhote comece, enfim, a ser tratado com a dignidade que a sua provecta idade merece. Agora só falta mesmo um anúncio que garanta que a partir do Inverno os utentes do Metro também passarão a comportar-se com mais civismo.

domingo, 13 de maio de 2018

A precariedade é essencial para o jornalismo

A presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco, revelou que um terço dos jornalistas ganha menos de 700€ líquidos por mês. É um dado que não pode, nem deve, deixar ninguém indiferente. Como é que é possível que, em pleno século XXI, dois terços dos jornalistas continuem a viver acima das suas possibilidades e que alguns deles tenham mesmo contractos sem termo? Será que um dia chegaremos ao absurdo de vermos jornalistas a receberem pelas horas extraordinárias que fazem?

Muitos defendem que a suposta precariedade dos jornalistas deve-se à ausência de um modelo de negócio sustentável. É um argumento pouco atendível, sobretudo quando olhamos para o nosso comportamento, enquanto consumidores de notícias. De uma forma geral, compreendemos a importância do jornalismo e temos sempre à mão de semear uma frase pronta a incensar as suas nobres virtudes. À míngua de originalidade, há quem se fique pela clássica afirmação de que o jornalismo é o quarto poder. Já outros preferem dizer, em jeito de alerta, que sem um jornalismo forte e independente, não existe democracia. Como seria de esperar, perante uma actividade profissional tão importante para a nossa sociedade, o nosso comportamento pauta-se por comprarmos cada vez menos jornais, não vermos notícias na televisão, não pagarmos por conteúdos noticiosos na internet, não aceitarmos publicidade e ficarmos indignados pela pouca profundidade e qualidade do jornalismo. No fundo, comportamo-nos como um indivíduo que entra numa marisqueira, pede os pratos mais caros, os melhores vinhos, sobremesa, digestivo e no final não só se recusa a pagar, como ainda pede o livro de reclamações porque a sapateira tinha um sabor esquisito. Perante isto, é difícil compreender como é que o jornalismo não consegue ser rentável.

Ter jornalistas que ganham menos de 700€ mensais e com contractos de seis ou três meses de duração são condições essenciais para ter uma comunicação social robusta e independente. O excesso de dinheiro tem um efeito inebriante, tirando-nos o foco daquilo que é essencial. José Sócrates que o diga. Provavelmente teria sido um primeiro-ministro muito melhor se se tivesse concentrado exclusivamente na governação do país em vez de perder tempo a ajudar o amigo a gerir (e a gastar) o seu dinheiro.

O adágio o pior inimigo é aquele que nada tem a perder encerra um manancial de sabedoria que merece ser tido em consideração para este caso. Se o salário dos jornalistas for ainda mais vampirizado, qualquer tipo de pressão que lhes possam fazer não surtirá efeito. O que dirá um banqueiro que esteja a ser investigado (vamos fantasiar) por branqueamento de capitais a um jornalista que ganha 300€ por mês a recibos verdes? Que lhe vai riscar o carro? É absurdo, porque o jornalista não tem dinheiro nem para manter uma segway e só anda de transportes públicos quando é mesmo necessário. Que lhe vai assaltar a casa? Também não serve, porque vive há anos num T0 alugado sem mobília. Que lhe vai raptar os filhos? É ainda mais disparatado, porque o jornalista adiou o plano de ter filhos para o dia em que for aumentado para 500€, o que deverá acontecer dentro de 30 anos. Que lhe vai tirar a vida? É ridículo: se a ideia é fazê-lo sofrer, mais vale deixá-lo vivo. Só com salários ainda mais baixos e vínculos laborais precários poderemos sonhar não só com um jornalismo gratuito à distância de um clique, tal como acontece hoje em dia, mas também de qualidade e imune a qualquer tipo de condicionamentos. Nesse dia, nenhum político ou banqueiro estará a salvo do rigor das investigações dos jornalistas. Desde que não desfaleçam a meio das investigações por terem cortado com o pequeno-almoço, almoço e jantar.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Não perca os melhores momentos da época 2012/2013 na Polícia Judiciária

Os leitores que nasceram antes da década de 90 certamente estarão recordados das cassetes vendidas pelo Jornal O Jogo com os resumos dos campeonatos nacionais narrados pelo inconfundível Gabriel Alves. Durante cerca de uma hora, o adepto regalava-se com os melhores jogos, golos e desempenhos dos jogadores que mais se destacaram ao longo da época. Tempos estranhos, esses, em que não era necessário ser especialista em direito ou social media para se poder discutir e apreciar futebol. Se hoje se voltasse a fazer o resumo de um campeonato, provavelmente a narração teria de conter as seguintes linhas: “Poucas horas antes do difícil jogo no Funchal, o presidente da equipa forasteira publicou um post no facebook com críticas à lista de convocados do treinador, amotinando a equipa contra si. Num acto com requintes de malvadez nunca antes visto, os capitães uniram-se e retiraram o like da página do presidente e as selfies que tinham tirado com ele na semana anterior. Quando aterraram no continente, o treinador publicou um tweet enigmático em que dava a entender que não iria continuar ao serviço do clube na próxima temporada. A propósito, o jogo terminou empatado a duas bolas.” A descrição das pré-épocas actuais seria igualmente diferente do que sucedia há 20 anos em que, de forma algo incompreensível, diga-se, se dava destaque à compra e venda de jogadores: “No defeso, o presidente não enjeitou esforços no reforço do plantel com quatro novos directores de comunicação especialistas em trogloditismo nas redes sociais e cinco comentadores recrutados nos melhores snack-bares da Madragoa e Moscavide para irem fazer arruaça para a televisão. Com tamanha qualidade, a equipa iria certamente ombrear com os outros candidatos na luta pelo título, o que acabou por acontecer.”

Tenho pena que a publicação desses resumos dos campeonatos não tenha continuado, sobretudo porque apesar de ser sobre futebol conseguia a proeza de falar mesmo de futebol, daquele em que há duas balizas e onze jogadores de cada lado. Felizmente, a Polícia Judiciária prepara-se para preencher esse vazio com a reposição dos 163 jogos do Benfica dos últimos cinco campeonatos. Será uma longa-metragem de 14.670 minutos e uma excelente oportunidade para fazer uma análise crítica comparada ao desempenho do clube ao longo de meia década. É também um trabalho que qualquer adepto de futebol que se preze gostaria de ter. Por essa razão, quero aproveitar este espaço para me candidatar ao cargo de técnico de visionamento de jogos de futebol do Benfica. Sei, como é óbvio, que não se trata apenas de ver os jogos, mas também de relacioná-los com emails e um alegado esquema de corrupção que terão ajudado o clube a somar vitórias até se sagrar tetracampeão nacional. Estou certo de que as minhas aulas de português e de educação física me deram as competências necessárias para aliar a recensão crítica de correspondência electrónica com os desempenhos de Cardozo e Jonas e demonstrar que os golos obtidos por ambos foram facilitados pelas defesas adversárias. Aqui fica a minha candidatura.

Entretanto, a direcção do Benfica já reagiu, exigindo que as partidas dos seus rivais nas últimas duas décadas sejam igualmente alvo de análise. Se a Polícia Judiciária acatar esta sugestão, então talvez deva avançar com a construção de um bar nas suas instalações. Com um consumo mínimo de 5 euros, os adeptos poderão reviver os melhores jogos dos seus clubes num plasma de grandes dimensões enquanto discutem, por exemplo, o enquadramento jurídico do Campomaiorense - FC Porto ou à luz de qual artigo da Constituição se deve proceder à visualização do Leça - Sporting. No final, acabarão a discutir com fervor a legalidade do email que levou o defesa central do Olhanense a falhar o corte no golo do Sporting ou se o artigo 247º do Código de Processo Penal estava em fora de jogo no lance do terceiro golo do Benfica - Nacional. Prevejo que em breve os adeptos comecem a transformar-se em Marinho Freitas Pinto, ou seja, um híbrido de Marinho e Pinto e Luís Freitas Lobo. Talvez nessa altura o futebol entre de vez na legalidade.

sábado, 27 de janeiro de 2018

A que horas passa o Apocalipse?

Foi com um profundo desapontamento que soube que os cientistas atómicos avançaram apenas 30 segundos os ponteiros do Relógio do Apocalipse. Os dois longos minutos que ainda faltam para a meia-noite são uma desfeita enorme para o excelente trabalho desenvolvido pela Humanidade em 2017. Creio que ninguém regateou esforços para dar cabo do planeta e até se conseguiu superar as expectativas. Agora só me resta voltar a pôr o champagne no frigorífico e explicar ao meu chefe que os comentários que teci sobre a actividade profissional isenta de impostos da sua mãe foram feitos em tom elogioso. 

Olhando para o ano anterior, é difícil de compreender o que falhou para o relógio só ter avançado 30 segundos. Houve corridas ao armamento nuclear, abundância de tweets de Donald Trump, guerras civis, crises de refugiados, fenómenos climáticos extremos, degelo do Ártico, o Sá Pinto a falar francês… Estava convencido de que este cocktail seria mais do que suficiente para se assistir ao fim do mundo. Afinal não. Provavelmente a descoberta das armas roubadas no paiol de Tancos terá sido decisiva para evitar a chegada do Apocalipse. “Este ano vamos ter mesmo de acertar o relógio para a meia-noite… E eu que já tinha comprado bilhetes para o Mundial… Mas olhem esta notícia: em Portugal os ladrões deixaram as armas roubadas num descampado da Chamusca. E até devolveram uma caixa a mais. Estamos safos! Avança o relógio apenas 30 segundos, Boris!”, terão exclamado, com alívio, os cientistas atómicos.

Apesar da importância que a comunicação social deu a este anúncio, para a maioria das pessoas é indiferente que estejamos à beira do Apocalipse. Desde que continue a haver wireless e apps que lhes permita seguir em streaming o desenrolar dos acontecimentos enquanto os partilham nas redes sociais, está tudo bem. Fim do mundo, sim, mas com ligação gratuita à internet. Claro que estou a ser demasiado optimista, porque duvido que a net continue a existir num mundo pós-apocalíptico. Juntamente com as baratas, creio que só o Preço Certo às 19 horas sobreviverá, com a vantagem de já não ter o telejornal a seguir.

Agora que estamos a iniciar mais um ano, temos de perceber o que falhou em 2017 para evitarmos repetir os mesmos erros. Tenho uma fé enorme na Humanidade e no seu potencial ilimitado para se destruir. Ainda que me pareça desnecessário, aqui ficam algumas sugestões para que o Relógio do Apocalipse chegue finalmente à meia-noite:

1. Cansada de aturar putos mimados, a Supernanny altera os seus métodos pedagógicos e começa a decapitá-los com um sabre e a espetar as suas cabeças em estacas em frente a jardins escola como aviso a outras crianças. Em menos de um mês, o programa torna-se líder de audiências.

2. Para combater o sucesso de Supernanny, a TVI lança o programa Super Nando. O director do Jornal Sol, José António Saraiva, irá a casa de pais com filhos homossexuais para curá-los, explicando-lhes as virtudes da heterossexualidade. Entre os métodos pedagógicos constará uma semana de convívio com trolhas.

3. Subitamente a justiça portuguesa começa a funcionar e em menos de três meses José Sócrates, Ricardo Salgado e Duarte Lima são julgados e consideram as sentenças justas. Os cientistas atómicos percebem que este inexplicável surto de eficiência é um sinal indesmentível de que o Apocalipse está próximo e acertam o relógio para as zero horas.

4. Há mais um tremor de terra em Portugal e desta vez a Geringonça cai. Nas eleições que se seguem, o Partido Comunista é o vencedor e coliga-se com o CDS-PP para ter maioria parlamentar. Jerónimo de Sousa começa então a andar com um pullover verde alface da Lacoste sobre os ombros e Assunção Cristas passa a fazer campismo em Setembro na Festa do Avante.

5. São inauguradas mais 50 Padarias Portuguesas em 2018. Donald Trump e Kim Jong-Un condenam a uma só voz esta nova ameaça global e apontam as ogivas nucleares para Portugal. Dão a António Costa três dias para que contenha a proliferação de panificadoras de má qualidade ou então varrem o país do mapa. Como o primeiro-ministro não quer interromper as férias para tratar do assunto, não lhes resta outra solução senão carregar nos respectivos botões vermelhos.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Este mundo não é para emigrantes pobres

Aristóteles defendeu que a filosofia nasce do nosso espanto perante o que nos rodeia. É por essa razão que Donald Trump é um dos maiores filósofos vivos da nossa época, com a vantagem de conseguir espantar-se com o mundo e simultaneamente espantar todos os que o ouvem. Ou seja, é alguém que além de filosofar induz os outros à reflexão filosófica.

O mais recente motivo de espanto de Donald Trump foi a constatação de que a maioria dos emigrantes que procuram entrar nos EUA é oriunda de países pobres. Para ser fidedigno às palavras do presidente americano, a expressão usada foi “países de merda”. É refrescante ver um grande pensador deixar de lado os hermetismos que abundam na filosofia e esforçar-se para utilizar uma linguagem que todos percebam sem descurar, no entanto, a análise pormenorizada dos grandes temas da actualidade. No final da sua prelecção, Trump sugeriu que os EUA deveriam apostar antes em emigrantes da Noruega. Apesar de não constar no testemunho dos seus discípulos mais próximos, é provável que tenha dado como exemplo do migrante modelo que quer para o país o porta-voz da Casa Branca Raj Shah que, tal como o nome e o tom de pele indicam, é descendente de pais escandinavos.

Passados que estão vários dias, as palavras de Donald Trump continuam a ser pasto para reflexão. Afinal de contas, que mistério é esse que leva os habitantes de países com educação e saúde gratuitas e que, regra geral, ocupam os lugares cimeiros do Índice de Desenvolvimento Humano a permanecerem no mesmo sítio em vez de emigrarem para os EUA? Por que razão os imigrantes são quase sempre oriundos de países pobres, corruptos e, muitas vezes, a braços com conflitos armados? Apesar de todas as interpretações possíveis sobre a intervenção de Trump, não oferece grandes dúvidas de que aponta para a necessidade de elevar a qualidade global dos migrantes. Os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de todo o mundo deviam começar desde já a alterar os critérios de admissão. Em vez de se preocuparem com minudências como passaportes ou vistos de entrada, deviam centrar-se antes nos seus bens materiais. Se tudo correr bem e a mundividência trumpiana se materializar, é provável que em breve se verifiquem situações como a seguinte nos controlos fronteiriços:

Guarda: Boa tarde. Pode desligar o BMW por favor?

Candidato a imigrante: Boa tarde. Com certeza, senhor guarda.

Guarda: Então o senhor e a sua família vêm de onde?

Candidato a imigrante: Vimos da Islândia, senhor guarda. Deixámos os nossos empregos, a nossa vivenda de três assoalhadas em Reykjavik e o nosso iate para emigrarmos para os EUA. Parámos só no Canadá para comprarmos o carro e assim entrarmos como deve ser no país, senhor guarda.

Guarda: Muito bem... E esse relógio que traz ao pulso é de ouro? Parece-me contrafacção.

Candidato a imigrante: Contrafacção senhor guarda? Isto tem 24 quilates. Mal consigo levantar o braço por causa do peso.

Guarda: E aquele casaco de peles que a sua esposa traz? É mesmo vison? Daqui parece feito com materiais sintéticos.

Candidato a imigrante: A minha esposa deixou o casaco de pele de raposa dentro do nosso jacto particular, senhor guarda. Como no Canadá fazia muito frio fomos à Zara e…

Guarda: Desculpe, disse Zara? Está a brincar comigo? Então o senhor quer entrar no nosso país com roupa comprada na Zara? Ponha-se já a andar daqui!

Candidato a imigrante: Mas senhor guarda é apenas um casaco. Já viu estes meus sapatos de pele de crocodilo? Eu prometo que quando entrar nos EUA compro um caso de pele de zibelina para a minha mulher.

Guarda: Desculpem mas os senhores não são imigrantes que se apresentem. Peço que desimpeçam a entrada. A senhora do Porsche faça favor de avançar.

Entre muitas outras vantagens, parece-me óbvio que a aposta em migração gourmet é a solução mais eficaz para muitas da crises humanitárias que assolam o nosso planeta. As tragédias que se verificam todos os meses no Mediterrâneo, por exemplo, só acontecem porque se tratam de migrantes pobres, sem dinheiro para ter barcos. É gente que quer ser emigrante sem ter recursos para isso, o que é lamentável. Com o salto qualitativo da migração será mais difícil que os transatlânticos de luxo naufraguem por sobrelotação. Em vez de coletes salva-vidas e de uma refeição quente, o que essas pessoas precisarão aquando do desembarque é de um protector solar e de um trolley para as bagagens.

Claro que nem tudo serão facilidades. Infelizmente, muitos países, entre os quais se insere Portugal, ainda não estão preparados para albergar com o mínimo de luxo este novo tipo de imigrantes. É provável que surjam conflitos sobre quem alugou primeiro a Penthouse do Hotel Pestana ou quem reservou mesa para quatro no Gambrinos. A ONU será obrigada a intervir e então António Guterres falará, no seu tom pesaroso habitual, da grave crise humanitária dos imigrantes alojados em hotéis de quatro ou até mesmo três estrelas e que tiveram de comer bife da vazia ao jantar por escassez de bife do lombo. Nessa altura Trump escreverá um tweet a queixar-se dos imigrantes vindos dos países desenvolvidos de merda e a exigir o regresso dos mexicanos e dos burritos porque está farto de comida gourmet.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

CTT têm cartas para dar na gestão

As mais recentes medidas tomadas pela administração dos CTT mereceram veementes críticas da maioria dos portugueses. É de lamentar que ninguém tenha dado conta de que estamos perante decisões estratégicas de excelência que mereceriam figurar em qualquer compêndio de gestão.

Na verdade, o presidente dos CTT, Francisco Lacerda, anunciou que 800 postos de trabalho serão eliminados nos próximos três anos. Perante o sobressalto que provocou, foi chamado de imediato ao Parlamento onde explicou o óbvio aos deputados: a redução do número de trabalhadores não implica qualquer degradação no serviço prestado. Alguns dias mais tarde, foi noticiado que 22 lojas poderão ser encerradas em breve. Mais uma vez gerou-se uma onda de indignação incompreensível e a empresa teve novamente de sair a terreiro para dizer aquilo que todas as pessoas de boa-fé já tinham percebido: “O plano de adequação não coloca em causa o serviço de proximidade às populações". É provável que dentro de algumas semanas seja anunciado outro plano de reestruturação que consistirá no fim dos envelopes, dos selos e da frota de distribuição dos CTT. Caso seja mesmo necessário, a administração emitirá um novo comunicado para esclarecer que a medida não só não irá pôr em causa o normal funcionamento da empresa como até será um estímulo importante para algumas actividades económicas que se encontram em estagnação, como é o caso da columbofilia.

A mestria das decisões dos CTT que conseguem reduzir o número de funcionários e encerrar lojas sem nunca pôr em causa a qualidade do serviço prestado é, sem sombra de dúvidas, um caso de estudo. No fundo, assemelha-se àqueles números em que o equilibrista não deixa cair nenhum prato apesar de os seus pontos de apoio serem cada vez mais precários. O potencial desta filosofia de gestão é tão vasto que seria uma pena que a sua aplicabilidade se reduzisse apenas ao mundo empresarial. Se pensarmos bem, há múltiplas formas de transpô-lo para a vida de cada um de nós. Quem não gostaria, por exemplo, de se despedir do trabalho pela manhã, à tarde comprar um Audi A8 e à noite explicar calmamente à família que o seu plano de reestruturação não põe em causa a sua estabilidade financeira? Ou quem nunca sonhou enganar a cara-metade e perante as injustas e inevitáveis acusações de adultério, esclarecer pacientemente que aquele plano de interacção intensivo não coloca qualquer entrave à relação de proximidade entre ambos? É importante que as universidades comecem desde já a trabalhar neste novo modelo de gestão, tanto mais que quero avançar brevemente com um plano de adequação pessoal que passa pelo meu despedimento seguido da aquisição de um iate. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Menos Dalai Lama e mais offshores

É famosa a resposta de George Mallory quando lhe perguntaram por que razão queria escalar o Evereste: “Porque está lá.” Também poderíamos responder exactamente o mesmo se nos questionassem sobre o motivo de ainda nos indignarmos com as offshores: “Porque estão lá.” E talvez acrescentássemos com um encolher de ombros: “É assim. Não há nada a fazer.” São evidências como estas que nos confrontam com a nossa pequenez e impotência em alterar a ordem natural das coisas. Por muito que nos custe admitir, o Homem é apenas um joguete das forças da Natureza que tanto são capazes de criar num dia montanhas gigantescas e, no outro, paraísos fiscais.
 
Apesar de ombrearem em termos de beleza e de monumentalidade, parece-me que atingir o cume de uma montanha com quase nove mil metros de altura é relativamente mais simples do que abrir conta numa offshore. Perder o nariz enquanto se sobe o Evereste é uma brincadeira de crianças quando comparado com as terríveis dificuldades em ter um saco azul nas Ilhas Bermudas ou uma empresa de fachada no Liechtenstein. Na verdade, todo aquele que deseja iniciar a sua demanda do paraíso fiscal necessita de uma grande preparação material e, simultaneamente, de um absoluto despojamento de todo e qualquer bem espiritual, ético e moral. O paraíso fiscal é, portanto, o negativo do paraíso cristão. “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”, disse Jesus aos seus discípulos. Ao invés, nas offshores é mais fácil passarem incólumes dez mil milhões de euros pela Autoridade Tributária e Aduaneira do que um pobre abrir um apartado fiscal na Mossack Fonseca.

A formação natural das offshores provoca a mesma reacção em nós que o pôr-do-sol: por mais vezes que o vejamos, ficamos sempre espantados. A grande diferença é que normalmente não nos indignamos quando o astro rei se afunda no horizonte; já com os paraísos fiscais há sempre um certo agastamento que, por norma, desaparece após alguns minutos. O processo é normalmente este: “Há uma offshore nas Ilhas Virgens? A sério? Não fazia a mínima ideia. O quê? O Ronaldo e o Messi põem lá dinheiro para fugir aos impostos? É uma vergonha! É tudo uma cambada de gatunos! É verdade, a que horas passa o Real Madrid-Barcelona?”

Por muita revolta que nos cause, há um aspecto positivo que nunca foi aflorado pelos especialistas na matéria: nos locais onde a Natureza cria paraísos fiscais, raramente há guerra. É por de mais conhecida a neutralidade da Suíça, as ilhas do Canal também não são propriamente uma ameaça à paz mundial e mesmo os Estados Unidos não têm um conflito em larga escala no seu território desde o século XIX. Ao contrário dos direitos humanos dos humanos, os direitos humanos do dinheiro têm sido exemplarmente observados em todo o mundo. Não me recordo da última vez que o Dinar foi vítima de perseguições políticas ou de a Libra ter sido descriminada pelas suas crenças religiosas. Infelizmente, a Amnistia Internacional tem sistematicamente ignorado estes factos nos relatórios que publica.

Parece-me, portanto, que a única solução para o conflito israelo-árabe passa pelo aparecimento de paraísos fiscais entre Ramallah e Telavive. Talvez assim o governo israelita pense nos apartados fiscais e nas contas bancárias que poderão ficar desalojadas antes de mandar invadir mais um pedaço de território palestiniano; por outro lado, o Hezbollah poderá reconsiderar a sua decisão de lançar roquetes no mercado de Jerusalém ao lembrar-se dos inocentes fundos financeiros que repousam em offshores hebraicas e que nada têm que ver com o conflito. No dia em que tal acontecer, ninguém tirará o Prémio Nobel da Paz aos paraísos fiscais. Esperemos que a Natureza seja misericordiosa connosco.

terça-feira, 21 de março de 2017

A clandestinidade é quem mais ordena

Na Ria Formosa começaram recentemente as demolições de várias casas construídas ilegalmente em zonas de risco. Como seria de esperar, os moradores têm protestado contra a decisão, o que tem sido frutífero: do número inicial de 369 construções a abater passou-se para 57. Esta redução é uma decisão acertada por parte do Ministério do Ambiente, porque mais do que nunca é preciso manter a qualidade elevada das obras clandestinas em Portugal. Provavelmente muitas das casas que vão ser demolidas pagavam uma mensalidade para ter televisão por cabo ou, pior ainda, tinham contrato em dia com a EDP, o que obviamente dá má fama aos verdadeiros clandestinos. Se é para andar a pactuar com situações regularizadas e em conformidade com a lei, então mais vale ficarem sem casa e abandonarem a clandestinidade de vez.

A luta dos moradores, contudo, não tem esmorecido e nos últimos tempos apresentaram um argumento de peso. Segundo eles, as construções clandestinas contribuem para a protecção do habitat do camaleão. A estocada argumentativa final veio do presidente da Câmara de Olhão, António Pina, que curiosamente também tem uma casa clandestina na Ria Formosa. De acordo com o autarca, o animal localiza-se “predominantemente nas árvores e arbustos existentes junto às habitações”, logo devem ser preservadas para que a fauna e flora subsistam. Perante esta explicação cristalina e cientificamente irrefutável, só por ignorância e má vontade é que as demolições irão avante.

Como todos sabem, foi a inexistência de obras clandestinas no período jurássico que levou à extinção dos dinossauros. Se houvesse alguns bairros ilegais, tinham-se abrigado no seu interior e nos arbustos situados nas imediações aquando da queda do meteorito e, ainda hoje, andavam por aí. A própria Quercus devia olhar para o caso de sucesso do camaleão na Ria Formosa e replicá-lo noutros locais. Na serra da Malcata, por exemplo, é evidente que o lince está praticamente extinto porque sente a falta de habitações clandestinas feitas em zinco ou alumínio que lhe animem os dias. Com tantas árvores e tanto verde, o animal sente-se aborrecido e prefere não dar continuidade à espécie.

Outro argumento insofismável apresentado pelo buliçoso presidente da Câmara de Olhão é que as construções ilegais são “uma conquista de Abril”. É inegável que tão ou mais importante que a liberdade, o desejo de viver em clandestinidade foi decisivo na Revolução de 1974. Naquela manhã de Abril, quantos e quantos portugueses se abraçaram em êxtase, enquanto gritavam: “Finalmente vou poder construir uma casa clandestina na Ria Formosa! Obrigado Salgueiro Maia!”

Estranhamente os historiadores, cancioneiros, poetas e artistas em geral têm ignorado o papel essencial que a aspiração do povo à clandestinidade teve no 25 de Abril. Lembro-me sempre disso quando leio o poema “As portas que Abril abriu” de Ary dos Santos. Logo para começar, sinto que o título está algo incompleto. Parece-me que o vate deveria ter optado por algo como “As portas clandestinas com acabamentos em alumínio que Abril abriu”. Depois podia e devia ter incluído no corpo do poema alguns versos que exprimissem o desejo colectivo de ter uma casa ilegal numa zona de risco, como por exemplo:

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um clandestino que sorriu
uma casa ilegal que se construísse
um mamarracho em zona protegida que ruiu
um autarca espertalhão que seguiu
o que o interesse pessoal lhe predisse
e entre alumínios zinco
armações em ferro chapas
puxadas eléctricas antenas
uma nação que enterrava
a sua vasta e única beleza
na construção que a fez escrava
da sua própria pobreza!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

I like, logo existe

Na manhã gelada do dia 15 de Fevereiro de 2014, Lucie deixou a filha à entrada da escola preparatória Franklin Roosevelt, situada nos arredores de Bowling Green, cidade americana do estado de Kentucky. O nevão que caíra de madrugada tornara as estradas praticamente intransitáveis, obrigando-a a conduzir mais devagar do que o habitual. Por esse motivo, Elisabeth estava cerca de 10 minutos atrasada para a aula de Geografia, algo que detestava que acontecesse. A partir dessa manhã, no entanto, a sua costumeira e obstinada inflexibilidade em relação a faltas de pontualidade iria mudar drasticamente.

A poucos metros da sala de aula, o silêncio do longo corredor foi cortado pelo barulho de duas rajadas de metralhadora misturadas com gritos de pânico e o tilintar de vidros partidos. Elisabeth ficou alguns segundos paralisada, em choque. “Não percebi logo de que lado viera o som e não sabia o que fazer”, conta. Uma nova saraivada de tiros mais intensa fê-la reagir e começar a correr na direcção da saída. Antes de dobrar o corredor, olhou para trás e viu dois indivíduos vestidos de negro a entrarem na sala onde decorria a aula de matemática. “Se tivesse ficado parada mais uns segundos tinha sido morta”, recorda Elisabeth com a voz trémula e lágrimas grossas a rolarem pela sua face adolescente, onde as olheiras fundas denunciam noites em claro. O barulho que se seguiu das AK47 enquanto se precipitava para a saída, ainda hoje a atormenta. “Qualquer som mais intenso como o estouro de um foguete deixa-me num estado de ansiedade incontrolável.” Desde essa fatídica manhã de Fevereiro que Elisabeth, agora com 16 anos, tem acompanhamento psicológico três vezes por semana.

Durante cerca de meia hora os dois autores do massacre puderam dar largas à sua orgia sanguinária. Entraram em cada sala de aula e mataram a sangue frio alunos e professores. A polícia, que entretanto cercara a escola, abateu um dos indivíduos no laboratório de química, enquanto o outro se refugiou na cantina, onde cometeu suicídio com um tiro na cabeça, depois de gritar algumas palavras imperceptíveis em árabe.

No total, foram mortos 53 alunos, 12 professores e 11 funcionários da escola Franklin Roosevelt. Foi o mais mortífero ataque com armas de fogo no estado de Kentucky e um dos piores em todo o país. Os dois autores do massacre eram iraquianos e tinham entrado nos Estados Unidos da América um mês antes. Abdul Abdeslam, 34 anos, e Ali Harib, 32 anos, estavam a viver em casa de Ahmed Hassan, primo do primeiro. Apesar de sempre ter negado qualquer envolvimento na preparação do ataque, ficou provado que Ahmed terá ajudado na compra das duas AK47 utilizadas no massacre, estando por esse motivo a cumprir uma pena de 60 anos de prisão.

Segundo as informações disponibilizadas pelo FBI, Abdul e Ali ter-se-ão conhecido na cidade iraquiana de Fallujah, onde se converteram ao islão radical e muito provavelmente aderido ao Daesh. Em Dezembro de 2013 compraram bilhetes de avião para os Estados Unidos da América com o intuito de procurarem trabalho no país. No mês seguinte aterraram no aeroporto de Bowling Green e ficaram hospedados em casa de Ahmed Hassan que vivia na cidade desde 2010 e era funcionário da cadeia de fast food KFC há dois anos. Ambos tinham passaporte e toda a documentação necessária para viajarem. Por esse motivo, nunca levantaram suspeitas aos serviços de segurança, o que reacendeu o debate sobre a necessidade de introduzir medidas mais restritivas em relação à entrada no país de cidadãos vindos do Médio Oriente.

Apesar da dimensão desta tragédia, a comunicação social nunca a noticiou. Nem uma linha foi escrita sobre o massacre, nem uma simples referência, nem uma nota de rodapé no jornal da noite. Nada. A razão para este silêncio cúmplice foi que (e agora peço que o leitor contenha a sua indignação) o massacre de Bowling Green nunca aconteceu. Trata-se de um argumento pífio e que tresanda a ranço. Sim, nada do que foi relatado nos últimos parágrafos aconteceu no mundo real, mas desde quando é que isso é um critério para não se escrever uma notícia?

Quando a conselheira presidencial Kellyanne Conway revelou este massacre numa entrevista a uma televisão norte-americana, o papel dos jornalistas não era investigar a sua veracidade no mundo real. O que deveriam ter feito era esquadrinhar as redes sociais e ver se havia pessoas suficientes a acreditar nele e a partilhá-lo pelos amigos virtuais. O acontecimento incendiou as redes sociais? Quantos likes teve? Já é viral? Quantas pessoas estão dispostas a defendê-lo e a insultar todos os outros que não acreditam nele? Estas são as perguntas que devem presidir qualquer investigação jornalística que se preze no século XXI.

Caso o massacre de Bowling Green não tivesse posto as redes sociais a arder, então sim, os jornalistas tinham toda a legitimidade para ter escrito algo como: “O massacre de Bowling Green não passa de um triste embuste da conselheira presidencial com propósitos populistas. Basta um rápido passar de olhos pelas redes sociais para constatar que este massacre teve apenas 57 likes e 23 partilhas, números claramente insuficientes para o tornar um facto. Kellyanne Conway é a prova de que não inventa factos quem quer, mas sim quem tem as competências necessárias para tal. Perante tamanha demonstração de amadorismo, não resta outra alternativa a Donald Trump que não seja demiti-la.”

No mundo da pós-verdade, o que aconteceu mesmo passou a ter um papel secundário em relação às minhas crenças. Se eu acredito em algo que é legitimado e defendido por um vasto número de utilizadores nas redes sociais, logo existe. Infelizmente muitos jornalistas continuam a sobrevalorizar acontecimentos que aconteceram mesmo em detrimento dos acontecimentos em que eu acredito ou que gostava que tivessem acontecido. É por essa razão que nunca vieram falar comigo, apesar de ser o único português que ganhou dez Ligas dos Campeões consecutivas e que descobriu em simultâneo a cura para a sida e o pé de atleta numa saída à noite com os amigos. Os 350 mil likes e as 500 mil partilhas que estes factos têm nas redes sociais atestam a sua veracidade. Depois admiram-se que as pessoas não comprem jornais.