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Quem muito estuda pouco aprende

Um dos dias mais tristes na vida dos meus pais foi quando concluí a licenciatura. Ainda hoje me atormentam as palavras amarguradas da minha mãe quando me viu de canudo na mão: “Filho, nunca pensei que me pudesses desiludir desta maneira. Eu tinha tanta esperança que um dia viesses a ser ministro e tu fazes-me a desfeita de tirar um curso de quatro anos. Sai já desta casa!”   Infelizmente, e como sucede na maioria dos casos, o tempo veio dar razão aos meus progenitores. Nunca tive a argúcia de Miguel Relvas para condensar quatro anos de licenciatura num só. Além disso, sempre fui falho no “exercício de funções privadas, empresariais e de intervenção social e cultural” que me permitissem ter equivalência a 90 por cento das cadeiras do meu curso. Ao contrário de mim, o Ministro dos Assuntos Parlamentares foi, entre outras coisas, secretário-geral do PSD, deputado na Assembleia da República e presidente da Região de Turismo dos Templários. À luz deste percurso profissional, é fáci...

Vamos pôr Portugal no caixote do lixo

Depois do polvo Paul, o oráculo escolhido para adivinhar os resultados do Euro-2012 é um porco de Kiev. Se este demonstrar os mesmos dotes de adivinhação do que o molusco inglês, então Portugal será um dos grandes favoritos na competição. Como os suínos gostam de chafurdar em pocilgas e em todo o género de imundícies, basta que o nosso país mantenha a classificação de lixo por mais um mês para que o animal escolha sempre o lado onde está a bandeira nacional. Afinal, as agências de rating sempre têm alguma utilidade. Claro que esta teoria acarreta alguns perigos. Se um ucraniano imigrado em Portugal vai bufar ao porco que nós comemos os seus familiares por inteiro, o animal irá exilar-se no asseio das asseadas bandeiras alemã, holandesa e dinamarquesa, deixando-nos fora do Euro logo na fase de grupos. É preciso que a embaixada nacional esteja atenta para que o trabalho do suíno não seja condicionado por este tipo de informações. Se tudo correr como o previsto, o grande adversár...

Tira já o curso em Estudos da Cereja segundo o método Luís Freitas Lobo

Por iniciativa da Câmara Municipal do Fundão, a cereja vai à Assembleia da República no dia 14 de Junho. Espera-se um discurso duro. Além das habituais queixas contra as aves, que continuam impunemente a bicar a sua pele, o fruto não deixará passar a oportunidade de denunciar a forma generalista e desleixada como é referido nas mercearias, supermercados e lojas de conveniência. Na verdade, quem está atento certamente já reparou nas diferenças de tratamento escandalosas, se não mesmo obscenas, entre a cereja e outros produtos. Quando peço um vinho, por exemplo, o empregado espera que eu especifique o meu pedido: é tinto, branco, verde, frisado, das planícies alentejanas, do douro vinhateiro, da península de Setúbal, da casta aragonesa, da casta syrah... Enfim, há uma profusão de escolhas a fazer antes de optar, regra geral, pelo mais barato da lista. Acto contínuo, segue-se toda uma mise-en-scène que vai desde a abertura da garrafa à degustação, passando pela poesia de rótulo, onde...

Desemprego: uma oportunidade de futuro

Pedro Passos Coelho afirmou que o desemprego pode ser uma oportunidade para mudar de vida. E o país estalou de indignação. Chegámos a um ponto em que dizer o óbvio se tornou numa perfídia terrível para os espíritos mais sensíveis. Podia fazer aqui a apologia do primeiro-ministro. No entanto, prefiro transcrever um anúncio de trabalho que encontrei num café ao pé de minha casa. Acho que após a sua leitura, muita gente considerará injustas as críticas que fez. Desemprego procura novos colaboradores Somos uma multinacional com uma forte implantação em todo o mundo que neste momento atravessa um período de grande crescimento em Portugal. Por essa razão, procuramos novos colaboradores que queiram iniciar uma carreira promissora e contribuir para o nosso sucesso nas décadas vindouras. Em contra-ciclo com a maioria das empresas a operar em território português, obtivemos os melhores resultados da nossa história no primeiro trimestre de 2012. Já conquistámos 14,9% da quota de ...

A ditadura do cliente Pingo Doce

Passou despercebida a campanha promocional que o Pingo Doce realizou no Dia do Trabalhador. É sempre assim. Preocupada que anda a discutir questões menores como o desemprego, a dependência do petróleo ou as alterações climáticas, a comunicação social não noticiou o que realmente interessa aos portugueses. De facto, bem merecia algumas linhas de mediatismo o genial golpe de marketing do Grupo Soares dos Santos. Graças a ele, as pessoas conseguiram comprar num só dia os mantimentos suficientes para sobreviver a mais três mandatos de Pedro Passos Coelho e da Troika. Além disso, recriaram com um rigor invejável os acontecimentos ocorridos na cidade de Chicago em Maio de 1886. Quem não recordou a jornada de luta por melhores condições laborais na Praça Haymarket ao ver a jornada de luta pela posse do bacalhau seco nas lojas Pingo Doce? Quem não vislumbrou a reivindicação pelas oito horas de trabalho no protesto pelas oito horas de espera nas caixa...

Faça o luto com segurança: use o preservativo

Em Abril de 2012, o Presidente do Malawi, Bing wa Mutharika, morreu de ataque cardíaco aos 78 anos. No dia do funeral, os malawianos expressaram a sua dor da forma esperada perante um acontecimento desta natureza: compraram preservativos em larga escala. Já em Abril de 1974, os militares portugueses derrubaram uma ditadura repressora de quase meio século e o povo não encontrou melhor maneira de celebrar esse momento histórico que não fosse com a compra maciça de cravos. Sinceramente, nunca pensei ver o dia em que o Malawi desse uma lição de vanguardismo social a Portugal. É motivo para sentir vergonha. A minha última esperança é que um historiador mais perspicaz consiga, dentro em breve, demonstrar que, ao contrário do que se tem dito, o que os portugueses ostentavam na lapela dos casacos durante o dia 25 de Abril de 1974 eram preservativos com sabor a cravo. Só assim será reposta a minha confiança na virilidade democrática do povo lusitano. Os publicitários também têm razões ...

A crise num centro comercial perto de nós

Os portugueses falam sobre o corte do subsídio de Natal nas mesas dos cafés e encolhem os ombros. Vêem na televisão as notícias sobre o galope do desemprego e sorriem com indulgência. Ouvem na rádio que os impostos vão aumentar e perguntam por novidades. Lêem no jornal que não vão abrir novos centros comerciais em 2012 e gritam espavoridos: “Meu Deus, a crise chegou!” Na condição de apreciador confesso de grandes superfícies de consumo, trata-se de uma notícia que me deixa triste. É em momentos como este que tomo pulso à verdadeira dimensão da carestia que nos está a afectar. Olho para o mapa de Portugal e pergunto-me, com os olhos emudecidos, o que será das boas gentes da Beira Baixa sem um Dolce Vita Alcongosta; qual o futuro da juventude alentejana sem um Canal Caveira Shopping; que sorte estará reservada aos transmontanos sem um Fórum Alfândega da Fé. Para muitos portugueses, os fins-de-semana vão deixar de fazer sentido. Os lisboetas, por exemplo, terão de se contentar em...