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O que fazer para manter a bonecada da Steiff em Portugal

Portugal está no trilho de um ajustamento económico que tem tanto de justo como de igualitário. Além dos cortes generalizados nos salários, o desemprego abateu-se como um nevoeiro homogéneo sobre toda a nação. Toda? Não! Há pequenas bolsas que ainda resistem ao receituário administrado pela Troika. Uma delas localiza-se na insuspeita vila de Oleiros. Ao que consta, os seus habitantes julgam-se diferentes dos demais, ostentando uma das mais elevadas taxas de emprego do país. É verdade: no cair do pano sobre 2012 ainda há sítios onde a vasta maioria das crianças vê os pais saírem de casa para irem trabalhar em locais que lhes garantem uma remuneração mensal. Trata-se de um evidente escândalo que há muito merece ter cobro. É por isso que a deslocalização da fábrica alemã Steiff de Oleiros para a Tunísia deve ser encarada com o regozijo próprio de quem não faz da justiça social uma flor de retórica. Se tudo correr bem, em breve 103 trabalhadores ficarão sem trabalho, o que nivelará a...

Previsões, opiniões e factos: vamos dar a César o que é de César

A justiça italiana condenou recentemente sete cientistas a seis anos de prisão por não terem conseguido prever o terramoto que destruiu a cidade de L’Aquila, em 2009. Trata-se de uma notícia reconfortante que demonstra que ainda há sítios no mundo onde a incúria não passa incólume. Na verdade, esta decisão é não só justa como pedagógica, porque vem pôr em sentido muitos outros charlatães que por aí andam. Estou-me a lembrar, por exemplo, daquelas pessoas que passam o tempo a aparecer na televisão, insufladas de afirmações muito assertivas e juncadas de termos técnicos. Quando as ouvimos até acreditamos nelas, mas logo percebemos o engodo assim que a realidade as desmente de forma categórica. Refiro-me, como já devem ter percebido, aos trabalhadores do Instituto de Meteorologia. Ou muito me engano, ou serão os próximos a ir fazer previsões para os estabelecimentos prisionais, caso continuem a trocar propositadamente o sol pela chuva e vice-versa. É bom que as autoridades andem de ol...

Uma campanha que não levanta ondas

O Turismo de Portugal lançou recentemente uma campanha em que oferece um bilhete de regresso ao nosso país aos surfistas estrangeiros que não encontrem, durante três dias consecutivos, ondas com mais de meio metro de altura em 28 praias pré-seleccionadas. Trata-se de uma iniciativa que prima pela ousadia e irreverência, porque em apenas 700 quilómetros de costa, o mais provável é que ninguém descortine uma única vaga digna desse nome. Na verdade, esta campanha faz tanto sentido como o Turismo de Inglaterra ofertar o Palácio de Buckingham ao turista que ficar bronzeado numa semana sob o sol tórrido de Londres. Já o nível de atrevimento é equivalente ao daqueles políticos que prometem baixar impostos e aumentar salários caso encontrem o défice controlado, o PIB a subir e o desemprego a descer quando forem eleitos para o cargo de primeiro-ministro. Mais proveitoso seria se o Turismo de Portugal desse à Angela Merkel um bilhete de volta a Lisboa se porventura não encontrar qualquer Go...

As cornadas que doem mesmo

Depois de terem ceifado a vida a um pastor em Setembro, os touros que campeiam livremente na aldeia de Segura, concelho de Idanha-a-Nova, voltaram a investir na semana passada. Desta vez foi um caçador que ficou gravemente ferido, com perfurações no pescoço, num dos pulmões e membros inferiores. Entretanto, não muito longe, mais precisamente em Vale Prazeres, vinte e duas ovelhas sucumbiram aos ataques de várias dezenas de abutres e grifos. Podia continuar a fazer o inventário de episódios semelhantes, no entanto, penso que a mensagem já terá passado: se há sítios em Portugal onde a vida ainda tem emoção e sabor, a Beira Baixa é claramente um deles. Não é apenas a fruição de dias bem preenchidos que tornam aquela região especial, mas também a ausência de preocupações. Ali as pessoas levam uma vida feliz e suave, como o fluir de um regato de águas transparentes, em contraste flagrante com a austeridade granítica que reveste o resto do país. Veja-se o exemplo da aldeia de Segura: o ...

A crise vai bem com Nestum de Figos

Quando em 2002 a situação do país piorou, registou-se um aumento no consumo de Nestum e, uma década depois, em virtude da grave crise financeira actual, a facturação da marca disparou sete por cento no primeiro semestre de 2012. A conclusão que se tira é que no que toca a pacotes anti-crise os portugueses preferem indubitavelmente o da Nestum. Trata-se de uma escolha óbvia: de todos os que surgiram até hoje, é de longe o mais doce e fácil de engolir. A substituição dos almoços e jantares habituais por papas é não só uma prova de abnegação mas também um acto patriótico dos portugueses, uma vez que a Nestum foi criada em Avanca, concelho de Estarreja, no ano de 1958. Se a crise continuar a rapar o bolso dos contribuintes, o próximo passo será trocar o gel banho pelo sabão macaco do Barreiro, a espuma de barbear pelo azeite Gallo de Abrantes e o Vítor Gaspar por um ministro que ajude de facto as finanças do país. Por outro lado, os portugueses estão a provar que as habit...

O ordenado mínimo desceu? Venha então mais um elogio da Alemanha

Há alguns meses, a chanceler Angela Merkel afirmou ter um “grande respeito” pelas reformas estruturais que estão a ser implementadas em Portugal. Mais recentemente, o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, sublinhou, não sem uma ponta de ciúme, que o seu homólogo português, Vítor Gaspar, era “o homem certo no lugar certo” para debelar a crise. Acto contínuo, Philip Rösler, ministro da economia, curiosamente também da Alemanha, frisou que o caminho “muito difícil” seguido por Portugal “está a ser traçado de forma exemplar para a Europa e para o mundo”. Perante estes três casos, a primeira ilação a tirar é que os alemães, afinal, não são desprovidos de sentido de humor. Tamanha enxurrada de elogios só podia redundar em 81 milhões de invejosos em relação ao exemplo da Europa e do mundo. Na verdade, quando um trabalhador alemão ouve falar do desemprego em Portugal, é obrigado a pregar os olhos no chão, em silêncio. Não apenas por vergonha, mas também para ver se encont...

Quem muito estuda pouco aprende

Um dos dias mais tristes na vida dos meus pais foi quando concluí a licenciatura. Ainda hoje me atormentam as palavras amarguradas da minha mãe quando me viu de canudo na mão: “Filho, nunca pensei que me pudesses desiludir desta maneira. Eu tinha tanta esperança que um dia viesses a ser ministro e tu fazes-me a desfeita de tirar um curso de quatro anos. Sai já desta casa!”   Infelizmente, e como sucede na maioria dos casos, o tempo veio dar razão aos meus progenitores. Nunca tive a argúcia de Miguel Relvas para condensar quatro anos de licenciatura num só. Além disso, sempre fui falho no “exercício de funções privadas, empresariais e de intervenção social e cultural” que me permitissem ter equivalência a 90 por cento das cadeiras do meu curso. Ao contrário de mim, o Ministro dos Assuntos Parlamentares foi, entre outras coisas, secretário-geral do PSD, deputado na Assembleia da República e presidente da Região de Turismo dos Templários. À luz deste percurso profissional, é fáci...