segunda-feira, 3 de abril de 2017

Menos Dalai Lama e mais offshores

É famosa a resposta de George Mallory quando lhe perguntaram por que razão queria escalar o Evereste: “Porque está lá.” Também poderíamos responder exactamente o mesmo se nos questionassem sobre o motivo de ainda nos indignarmos com as offshores: “Porque estão lá.” E talvez acrescentássemos com um encolher de ombros: “É assim. Não há nada a fazer.” São evidências como estas que nos confrontam com a nossa pequenez e impotência em alterar a ordem natural das coisas. Por muito que nos custe admitir, o Homem é apenas um joguete das forças da Natureza que tanto são capazes de criar num dia montanhas gigantescas e, no outro, paraísos fiscais.
 
Apesar de ombrearem em termos de beleza e de monumentalidade, parece-me que atingir o cume de uma montanha com quase nove mil metros de altura é relativamente mais simples do que abrir conta numa offshore. Perder o nariz enquanto se sobe o Evereste é uma brincadeira de crianças quando comparado com as terríveis dificuldades em ter um saco azul nas Ilhas Bermudas ou uma empresa de fachada no Liechtenstein. Na verdade, todo aquele que deseja iniciar a sua demanda do paraíso fiscal necessita de uma grande preparação material e, simultaneamente, de um absoluto despojamento de todo e qualquer bem espiritual, ético e moral. O paraíso fiscal é, portanto, o negativo do paraíso cristão. “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”, disse Jesus aos seus discípulos. Ao invés, nas offshores é mais fácil passarem incólumes dez mil milhões de euros pela Autoridade Tributária e Aduaneira do que um pobre abrir um apartado fiscal na Mossack Fonseca.

A formação natural das offshores provoca a mesma reacção em nós que o pôr-do-sol: por mais vezes que o vejamos, ficamos sempre espantados. A grande diferença é que normalmente não nos indignamos quando o astro rei se afunda no horizonte; já com os paraísos fiscais há sempre um certo agastamento que, por norma, desaparece após alguns minutos. O processo é normalmente este: “Há uma offshore nas Ilhas Virgens? A sério? Não fazia a mínima ideia. O quê? O Ronaldo e o Messi põem lá dinheiro para fugir aos impostos? É uma vergonha! É tudo uma cambada de gatunos! É verdade, a que horas passa o Real Madrid-Barcelona?”

Por muita revolta que nos cause, há um aspecto positivo que nunca foi aflorado pelos especialistas na matéria: nos locais onde a Natureza cria paraísos fiscais, raramente há guerra. É por de mais conhecida a neutralidade da Suíça, as ilhas do Canal também não são propriamente uma ameaça à paz mundial e mesmo os Estados Unidos não têm um conflito em larga escala no seu território desde o século XIX. Ao contrário dos direitos humanos dos humanos, os direitos humanos do dinheiro têm sido exemplarmente observados em todo o mundo. Não me recordo da última vez que o Dinar foi vítima de perseguições políticas ou de a Libra ter sido descriminada pelas suas crenças religiosas. Infelizmente, a Amnistia Internacional tem sistematicamente ignorado estes factos nos relatórios que publica.

Parece-me, portanto, que a única solução para o conflito israelo-árabe passa pelo aparecimento de paraísos fiscais entre Ramallah e Telavive. Talvez assim o governo israelita pense nos apartados fiscais e nas contas bancárias que poderão ficar desalojadas antes de mandar invadir mais um pedaço de território palestiniano; por outro lado, o Hezbollah poderá reconsiderar a sua decisão de lançar roquetes no mercado de Jerusalém ao lembrar-se dos inocentes fundos financeiros que repousam em offshores hebraicas e que nada têm que ver com o conflito. No dia em que tal acontecer, ninguém tirará o Prémio Nobel da Paz aos paraísos fiscais. Esperemos que a Natureza seja misericordiosa connosco.

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